E se lhe perguntar sobre escolhas mais determinantes. Por exemplo, a escolha do carro, foi sua? Provavelmente pediu referências, não? Consultou os catálogos, comparou preços, discutiu o assunto em família, chegaram a um consenso, mas a escolha foi sua, correcto? E a casa? Não sei se gosta da sua casa, se é grande ou pequena, se está a precisar de obras, se a vizinhança é barulhenta, de facto, nem sequer sei onde mora, mas aposto que foi você que escolheu a sua casa, ou estou enganado?
E já agora, a escola, foi você que escolheu a escola dos seus filhos? Não?! Não acha estranho? Escolhemos mala e sapatos a condizer, escolhemos o quiosque onde compramos o jornal, escolhemos o carro e a casa, mas a escola, há outros que escolhem por nós. Porque será?
Francisco Vieira e Sousa, in Correio da Manhã
Não será um artigo ao nível (elevado) a que estamos habituados. Parte de premissas cuja adjectivação fica à consideração de cada leitor e contém em si mesmo uma lógica pouco realista e com pouca generalização possível.
ResponderEliminarA escolha da roupa pode ser do próprio, mas só entre aquela que tem em casa.
O pequeno-almoço, idem. Conforme o que o salário permite levar para casa na véspera.
O meio de transporte? Aquele que houver - normalmente sem escolha. Mesmo que o leitor quisesse/pudesse pagar...
Até o CM! Comprou ou partilhou? E teve escolha?
Escolhas determinantes
A escolha do carro? Ou será a escolha do passe da empresa A ou da empresa B? Ir na carreira, de metro ou ir a pé? Gostaria de (ter de) pedir referências, não gostaria? Consultou catálogos, comparou preços e ficou tão angustiado e impotente que nem conseguiu falar sobre o assunto com a família? A (não) escolha foi sua.
"E a sua casa? Não sei se gosta da sua casa, se é grande ou pequena, se está a precisar de obras, se a vizinhança é barulhenta, de facto, nem sequer sei onde mora, mas aposto que foi você que escolheu a sua casa, ou estou enganado?"
Claro que a escolha foi sua. Está na sua casa dos sonhos, não a trocaria por nada deste mundo. Ou não. Está nesta sua casa porque tinha de ter um lugar para ficar com a sua família no final de cada dia e era a que tinha um custo, que lhe permitia não ficar a dever a ninguém e viver com um mínimo de dignidade. Talvez nem isso. Foi o que se conseguiu arranjar. E já não foi mau.
"E já agora, a escola, foi você que escolheu a escola dos seus filhos? Não?!" Foi. Na matrícula pôde colocar cinco opções. Ordenou-as como quis. Não havia a opção na sua zona? Não lhe limitaram a escolha, pois não? Mas prescindiu das que estavam mais afastadas, porque entendeu que não faria sentido perder tanto tempo em deslocações todos os dias. Ah, foi informado das prioridades regulamentares (legais) para a entrada de alunos na escola... Achou estranho? Se a resposta educativa o satisfez, não. Se ficou insatisfeito, sim, claro. Achou estranho e até ficou indignado.
Como nas questões colocadas no início, também pôde escolher a escola que quis, mesmo se privada. Tinha era de pagar, tal como com todas as coisas acima listadas. Mas (além disso, mesmo que pudesse pagar) as prioridades para a entrada é que não eram assim tão claras (havia sempre a famosa entrevista), certo?!
Escolhemos mala e sapatos a condizer - se tivermos dinheiro para isso e se tal for uma prioridade,
escolhemos o quiosque onde compramos o jornal - se for no nosso caminho e se tivermos tempo,
escolhemos o jornal que compramos, se tivermos dinheiro para isso, se tivermos capacidade de discernimento e/ou se houver escolha na banca,
escolhemos o carro e a casa - entre o que podemos adquirir e o que desejamos vai uma grande diferença,
mas a escola, há outros que escolhem por nós. Será mesmo assim?
Caro timtim,
ResponderEliminara questão é mesmo essa: se aceitamos que não há escolhas "puras" ou perfeitas; se para tudo o resto preferimos um sistema de escolha, mesmo com limitações, mesmo imperfeito; porque razão não implementamos há-de o sistema de ensino seguir a mesma filosofia?
É diferente comermos todos pão com manteiga, porque só há pão com manteiga ou porque só temos dinheiro para ocmer pão com manteiga; ou comermos todos pão com manteiga porque a prioridade regulamentar (legal) impõe que se acabe o pão com manteiga antes de comer pão com doce.
Parece semântica, mas não é...